Ex-diretor da Petrobras e doleiro delataram à Justiça Federal esquema de corrupção que envolveu as diretorias da empresa na cobrança de propina para abastecer partidos políticos, durante os governos Lula e Dilma.

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef delataram à Justiça Federal, com muitos detalhes, um esquema de corrupção que envolveu as diretorias da empresa na cobrança de propina para abastecer partidos políticos, durante os governos Lula e Dilma.
Segundo os depoimentos, dinheiro desviado da Petrobras foi usado para
financiar campanhas eleitorais em 2010. O Jornal Nacional teve acesso às
gravações dos depoimentos em que Paulo Roberto e Alberto Youssef
citaram o PT, o PMDB e o PP e falaram sobre os percentuais que políticos
e partidos teriam recebido.
Os depoimentos à Justiça Federal em Curitiba nesta quarta-feira (9)
foram gravados em áudio. O ex-diretor de abastecimento da Petrobras
Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef explicaram que, desde
2006, durante o governo Lula, existia um cartel na Petrobras.
Funcionava assim: partidos políticos aliados ao governo - PP, PMDB e PT
- indicavam diretores para ocupar cargos na Petrobras nas diretorias de
Abastecimento, de Serviços, de Exploração e Produção, Internacional e
de Gás e Energia.
Os diretores e o doleiro negociavam com diretores de empreiteiras o
percentual da propina. Em troca, as empresas conseguiam os contratos. A
propina saía dos cofres das empreiteiras e era distribuída aos diretores
da Petrobras, a políticos e ao doleiro Alberto Youssef.
Treze empreiteiras foram citadas no depoimento como participantes do
esquema, entre elas: Camargo Corrêa, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão,
Andrade Gutierrez e Mendes Junior.
O ex-diretor revelou os percentuais dos pagamentos. Dinheiro desviado de contratos da Petrobras.
“Me foi colocado lá pelas empresas, e também pelo partido que, dessa
média de 3%, o que fosse Diretoria de Abastecimento, 1% seria repassado
para o PP. E os 2% restantes ficariam para o PT, dentro da Diretoria que
prestava esse tipo de serviço, que era a Diretoria de Serviços”, conta
Paulo Roberto Costa.
Youssef confirmou que, sem propina, não tinha contrato.
Alberto Youssef: Se ela não pagasse, tinha a ingerência política e do próprio diretor que ela não fazia a obra se ela não pagasse.
Youssef exemplificou. “Vou explicar para Vossa Excelência entender. O contrato é um só. Uma obra da Camargo Corrêa, 3,48 bilhões, tá certo? Ela tinha 34 milhões, ela tinha que pagar por aquela obra para o PP. Eu era responsável por essa parte. A outra parte eu não era responsável. Ele tinha que pagar mais 1%, mais outros 34 milhões, ou 2%, no caso o Paulo Roberto está dizendo, para outro operador, que no caso, João Vaccari”, diz Alberto Youssef.
Youssef exemplificou. “Vou explicar para Vossa Excelência entender. O contrato é um só. Uma obra da Camargo Corrêa, 3,48 bilhões, tá certo? Ela tinha 34 milhões, ela tinha que pagar por aquela obra para o PP. Eu era responsável por essa parte. A outra parte eu não era responsável. Ele tinha que pagar mais 1%, mais outros 34 milhões, ou 2%, no caso o Paulo Roberto está dizendo, para outro operador, que no caso, João Vaccari”, diz Alberto Youssef.
João Vaccari é tesoureiro nacional do Partido dos Trabalhadores.
Segundo Paulo Roberto, em três diretorias da Petrobras, a propina não
era dividida com outros partidos, ficava integralmente com o PT:
Exploração e Produção, Gás e Energia e de Serviços. Segundo o
ex-diretor, Vaccari era o operador do partido dentro da Petrobras. E fez
indicação política junto com o ex-ministro José Dirceu.
“Dentro da área de serviços tinha o diretor, o diretor Duque, que foi
indicado na época pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu e ele tinha
essa ligação com o João Vaccari dentro desse processo do PT”, explica
Paulo Roberto Costa.
Paulo Roberto disse que Renato Duque recebeu dinheiro do esquema. Assim
como Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras, que
negociou a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. O
negócio gerou prejuízo de US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas
da União. Cerveró virou diretor da Petrobras por indicação do PMDB, de
acordo com Paulo Roberto.
O doleiro confirmou e complementou: os desvios só funcionaram por causa dos agentes públicos.
“Tinha gente muito mais elevada acima disso, inclusive acima de Paulo
Roberto Costa. No caso, agentes públicos. Esse assunto ocorria nas obras
da Petrobras e eu era um dos operadores”, explica Alberto Youssef.
Paulo Roberto Costa chegou à Diretoria de Abastecimento da Petrobras
graças a uma escolha política. Segundo o doleiro Alberto Youssef, a
nomeação dele em 2004 foi viabilizada por pressão no Congresso. Ele
afirmou que o ex-presidente Lula cedeu a aliados e aceitou a indicação.
“Eu tenho conhecimento que para que o Paulo Roberto Costa fosse,
assumisse a cadeira de diretor da Diretoria de Abastecimento... esses
agentes políticos trancaram a pauta no Congresso durante 90 dias. Na
época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou louco, teve que
ceder e realmente empossar o Paulo Roberto Costa na Diretoria de
Abastecimento”, lembra Alberto Youssef.
Segundo os depoimentos, o esquema durou cerca de seis anos. E só
terminou assim que Paulo Roberto deixou a diretoria de abastecimento, em
abril de 2012, já no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Os
pagamentos feitos depois disso, de acordo com eles, eram pendências e
não propina de novos contratos. O suborno era pago em dinheiro vivo.
Paulo Roberto afirmou que já chegou a ser pago em um shopping. E também
confirmou que o dinheiro desviado abasteceu campanhas eleitorais em
2010.
“Nós tínhamos reuniões com uma certa periodicidade com esse grupo
político. E essa periodicidade então se comentava, ó, recebemos isso,
recebemos aquilo e etc. Na minha agenda que foi apreendida na minha
residência tem uma tabela, detalhada junto ao Ministério Público e esta
tabela ela revela vários valores de agentes políticos, de vários
partidos que foram relativos a eleição de 2010”, conta Paulo Roberto
Costa
Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef não citaram nomes de autoridades
com foro privilegiado porque essa análise só pode ser feita pelo Supremo
Tribunal Federal. Os depoimentos foram dados no processo sobre lavagem
na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Paulo Roberto foi diretor do
Conselho de Administração, autoridade máxima na estrutura da refinaria. E
confirmou.
Juiz: O senhor confirma que houve, então, um superfaturamento, na obra da Abreu e Lima?
Paulo Roberto Costa: Eu confirmo que além do BDI que as empresas colocam, que são seus custos indiretos mais o seu lucro... Essas do cartel, vou repetir de novo aqui, não são todas as empresas. São empresas do cartel, colocaram em média esse percentual a mais para poder atender a interesses políticos.
Paulo Roberto Costa: Eu confirmo que além do BDI que as empresas colocam, que são seus custos indiretos mais o seu lucro... Essas do cartel, vou repetir de novo aqui, não são todas as empresas. São empresas do cartel, colocaram em média esse percentual a mais para poder atender a interesses políticos.
O doleiro confirmou que empresas do esquema até chegaram a executar serviços, mas a preços que incluíam a parte da propina.
Alberto Youssef: O que eu quero dizer é o seguinte, a
Vossa Excelência: que realmente a Sanko executou esses serviços,
realmente a Sanko forneceu os equipamentos para a Camargo Corrêa, mas
foi colocado um acréscimo valor nas notas de serviço para que ele
pudesse me fazer o repasse.
Juiz: Esse acréscimo corresponde exatamente ao valor que foi depositado nas suas contas depois, nas contas que o senhor controlava?
Alberto Youssef: É, parte sim e parte, não.
Alberto Youssef: É, parte sim e parte, não.
O ex-diretor já fez delação premiada e cumpre prisão domiciliar no Rio.
Ao juiz, ao Ministério Público e advogados, ele resumiu a lógica que
fez o esquema funcionar por tanto tempo.
“Se houve erro, e houve erro... foi a partir da entrada minha na
diretoria por envolvimento com grupos políticos principalmente que,
usando a oração de São Francisco, que é 'dando que se recebe'. Eles usam
muito isso”, explica Paulo Roberto Costa.
O Partido dos Trabalhadores, PT, repudiou com veemência e indignação o
que classificou de declarações caluniosas de Paulo Roberto Costa. O PT
negou ter recebido dinheiro desviado da Petrobras e declarou que todas
as doações para o partido seguem as normas legais e são registradas na
Justiça Eleitoral.
Segundo a Secretaria Nacional de Finanças do PT, o depoimento do
ex-diretor Paulo Roberto Costa está carregado de informações distorcidas
e mentirosas e o secretário João Vaccari Neto nunca tratou de qualquer
assunto com ele.
Tanto o Partido Progressista quanto o PMDB declararam que desconhecem o
teor das denúncias porque não tiveram acesso ao conteúdo da delação.
O advogado de Nestor Cerveró disse que não existe nenhuma investigação contra o cliente dele.
Renato Duque disse que desconhece o teor dos depoimentos e que vai entrar com uma ação penal contra Paulo Roberto Costa.
O ex-ministro José Dirceu declarou que não foi ele quem indicou Renato Duque para a Diretoria de Serviços da Petrobras.
A Petrobras declarou que tem colaborado com as investigações e que tem
sido reconhecida, pelas autoridades, como vítima nesse processo de
apuração.
A Camargo Corrêa, a Odebrecht, a Queiroz Galvão, a Sanko Sider e a
Andrade Guttierrez negaram ter cometido irregularidades. A Mendes Júnior
declarou que não se pronuncia sobre processos em andamento. A OAS não
retornou nossas ligações.
O Palácio do Planalto e o ex-presidente Lula declararam que não vão se manifestar sobre o assunto.
Fonte: jornal-nacional